Mestre Irineu – Biografia

Biografia – Mestre Raimundo Irineu Serra
Biografia – Mestre Raimundo Irineu Serra
(1892 – 1971)
Mestre Raimundo Irineu Serra

Raimundo Irineu Serra nasceu em São Vicente Ferrer no Maranhão no dia 15 de dezembro de 1892, filho de Sancho Martinho Serra e Joana de Assunção Serra, uma católica devota. De seus pais temos poucas informações. Sabemos que seu pai fora escravo em um grande engenho de cana de propriedade de um grande coronel da região chamado Mariano de Matos, daí o seu sobrenome. Sua certidão de batismo indica porém que teria nascido dois anos antes, 1890 portanto.

A origem do nome bem poderia ser alguma devoção que o Padre José Bráulio, que realizou o batistério na igreja construída pelos dominicanos, nas cercanias do igarapé Cajapió, por São Irineu, o grande mártir e doutor da igreja do século II. Apesar de pura especulação poética, bem poderia ser uma coincidência auspiciosa, na medida que São Irineu recebeu influência direta das comunidades ligadas ao apostolo João, através de São Policarpo, discípulo do mesmo. E alguma coisa na missão do depois mestre Irineu nos remete aos anúncios feito no 4º evangelho sobre o Paráclito, o Consolador Prometido, o próprio Santo Daime por ele descoberto.

Infância e Juventude

Irineu era o primogênito dos seis filhos do casal Sancho e Joana. Os outros irmãos eram Dico, Verônica, Matilde, Maria e Nhá Dica, a caçula. Consta que quando o pai morreu o padrinho de Irineu, Paulo Serra, irmão de sua mãe, assumiu a educação do menino. Irineu, como filho mais velho também teve que assumir algumas das responsabilidades do pai em relação à casa e aos irmãos mais novos.

São Vicente Ferrer - Maranhão

Consta que Irineu viveu com a família em São Vicente Ferrer até a idade de 12 anos, portanto, até 1904. Neste ano ele passou a residir em São Luís, a capital do Estado.

Não temos muitas informações sobre a sua infância e adolescência. Ele contava que, quando menino, quando fazia alguma coisa errada era disciplinado em sonhos e visões, sendo obrigado a ficar ajoelhado em cima do arroz em casca num grande paiol. E que anos depois quando teve a visão de Clara ela lhe confirmou ser a causa daqueles corretivos.

A Juventude e os Folguedos

Existem alguns relatos de histórias da sua mocidade sobre sua participação nas brincadeiras e folguedos de rapaz. Ele era um jovem vigoroso, com quase 2 metros de altura, corpulento. Inspirava confiança e tinha grande capacidade de liderança. Pelo visto era também muito “arteiro”. Segundos os relatos colhidos, Irineu esteve “noivo para casar” de uma moça chamada Fernanda, filha do Sr Cândido Alípio.

Ele enfrentava uma certa resistência da mãe contra este casamento por ela achar que ele era ainda muito jovem para contrair tal responsabilidade. Um dia ele teria ido aconselhar-se com seu padrinho Paulo Serra, que lhe teria dito: “-Irineu, um homem para se casar precisa antes dar uma volta no mundo, saber quanto custa isto e aquilo, para depois garantir que pode sustentar uma família, etc.”

Mais ou menos por esta época teria se metido numa grande confusão durante um tambor de crioula. Ele tinha sido proibido pela mãe de frequentar este tipo de festa onde havia atabaques, batucadas e muita cachaça. Mas assim mesmo ele foi, na companhia de seu primo Casimiro, que era quase tão grande quanto ele. E se envolveram numa grande pancadaria.

Inventaram de cortar com um terçado todos os punhos das redes do dono da casa, derrubaram as portas, a maior confusão. A mãe foi avisada do ocorrido já tarde da noite e foi pedir ajuda ao irmão Paulo, que Irineu muito respeitava.

No outro dia, pela manhã cedo, Paulo foi até a casa da irmã e foi logo perguntando para ela aonde estava Irineu. Quando ele se apresentou, foi recebido com três chicotadas de rebenque na cabeça. Depois que o padrinho se retirou, segundo o depoimento de Aprígio Antero Serra, seu primo, “- ele pegou uma calça de saco, uma camisa de brim alfacim, colocou tudo dentro de um saco de trigo e ganhou o mundo; só reapareceu 46 anos depois”.

A Partida para o Acre

Talvez a idéia de viajar já estivesse presente no espírito de Irineu, influenciado pelos conselhos do tio e padrinho. Mas sem dúvida foram as 3 chicotadas que se tornaram o argumento decisivo que o impeliu em busca do seu destino. O que o levou inclusive, depois dos quase 50 anos, quando voltou à sua terra natal para rever a família, que ele agradecesse ao tio justamente por isto.

Mas no ponto que estamos, o jovem Raimundo ainda não tinha nenhuma noção da grandiosidade do seu destino. Certamente este já influía de alguma maneira, sem que ele suspeitasse. Nem que fosse no desprendimento necessário para tomar a decisão da viagem, para renunciar aos seus laços familiares, à sua terra natal, etc.

Ao que tudo indica, tudo isto se passou em 1911, data que Raimundo Irineu Serra embarcou de São Luís para Manaus. Depois de uma passagem breve em Belém, onde chegou a trabalhar de jardineiro para juntar algum dinheiro, foi para Manaus, onde morou aproximadamente um ano.

Nesta época no mundo (ou melhor na Europa, então considerada o mundo), ruía a chamada belle-epoque, a relativa paz do final do século XIX e começo do século XX e as expectativas criadas pelo credo positivista e a crença de que o progresso material traria o aperfeiçoamento moral e o progresso para a humanidade.

Chegada ao Acre

Raimundo Irineu Serra, depois deste ano em Manaus, embarcou em um navio em direção ao recém anexado território do Acre. Consta que ainda fez pequenas paradas em Itacoatiara e Eurinepé. Chegou em Xapuri no dia 14 de março de 1912. Permaneceu nesta cidade às margens do rio Aquiry, por cerca de 2 anos.

Região do Acre

Recém chegado à nova vida de seringueiro Irineu veio a relatar muito tempo depois uma história que revela de forma exemplar o seu caráter. Quando ele chegou de Manaus e chegou no seringal Nossa Senhora do Bom Futuro, para ser destinado a uma das colocações, como era de praxe, o anotador do barracão foi confeccionar a nota das mercadorias e utensílios que ele deveria levar.

Conversador, ele perguntou da procedência de Irineu e como ele dissesse ser maranhense, ele logo acrescentou que todos os maranhenses que conhecera eram sabidos e perguntou se ele sabia escrever. Irineu, segundo contou anos depois, para não desmerecer o seu estado, disse que sim. Mas logo depois, quando o homem foi embora, foi acometido de uma crise de consciência, que o levou a pedir ao amigo uma carta de ABC para que ele pudesse estudar e cumprir com o que tinha afirmado.

O Encontro com a Ayahuasca

Em 1914 mudou-se para Brasiléia, perto de Cobija, onde passou a trabalhar no seringal Nossa Senhora do Bom Futuro, próximo à fronteira boliviana. Foi nestas paragens que conheceu aos irmãos Antonio e André Costa, maranhenses como ele. E a partir destes conterrâneos, foi que o negro, gigante e trabalhador Irineu iria iniciar um novo capítulo da sua história, que o transformaria no Mestre Irineu que todos nós conhecemos e reverenciamos.

Neste ponto da nossa história, os relatos puramente biográficos, de reconstituição dos fatos e incidentes triviais que levaram Irineu ao seu encontro com a ayahuasca, sofrem um divisor de águas. A partir deste encontro, além da história concreta, entramos também no território do mito. Os relatos vão se agrupando, condensando, passando pelo testemunho de diversas gerações, num processo não isento de contradições.

Os relatos de primeira mãos, as lembranças do próprio Mestre, contadas na intimidade de uma roda de discípulos no alpendre de sua casa, ganham diversas tonalidades pedagógicas ou moralizantes, de acordo com as intenções dos novos interlocutores. A história real é idealizada pela criação anônima e coletiva da fé de milhares de pessoas que conviveram e se beneficiaram da presença de um homem santo.

Segundo a tradição, foi portanto a partir de 1912, no mais tardar início de 1913 que Irineu, já entrosado com Antônio Costa, que era regatão e o visitava com certa frequência em sua colocação, começou a se interessar pela ayahuasca. Provavelmente o início de sua iniciação na bebida teria sido em 1914, quando enfim Antonio Costa o teria levado para uma sessão com um xamã peruano.

O Encontro com Clara

Depreende-se que, posteriormente a este contato, foi que ele, na continuidade das sessões desenvolvidas junto aos irmãos Costa, ainda cortando seringa na selva, teve o memorável encontro com a senhora de nome Clara, numa noite de lua cheia. Este parece ser, sem dúvida, o fato estruturante, o marco zero da missão do mestre Irineu e o início da Doutrina.

Com pequenas variações, os relatos se referem a uma visão que tomou forma corpórea e a partir da qual, o recém nomeado mestre foi recebendo as instruções e aconselhamentos que o fizeram o fundador de uma missão espiritual.

Data daí a entrega feita pela rainha do seu primeiro hino, Lua Branca, quando o exortou a que balbuciasse as estrofes que ela lhe estava inspirando naquele momento e que ele dentro de sua timidez julgava ser incapaz de fazer. Este belo hino abre não apenas o seu Hinário do Cruzeiro, como inaugura a forma de recepção de hinos que é marca registrada de todo o trabalho espiritual que se segue.

Anos de Formação e Mestria

Durante as andanças realizadas enquanto era o guarda valores da Comissão de Limites, é bem provável que Irineu tenha obtido novos horizontes em relação à ayahuasca. Pois é seguro que tenham tido contatos com diversas tribos da região ocidental da Amazônia que já faziam uso imemorial da ayahuasca.

Guarda Territorial

Uma nova etapa se abre na sua história quando ele, voltando de todas estas andanças, senta praça na guarda territorial de Rio Branco. Neste tempo é que conhece seus primeiros companheiros, Guilherme Germano (o maninho, seu colega de farda) e José das Neves. Consta que antes dele iniciar oficialmente seus trabalhos, costumava, nos dias de folga, ir para mata preparar a bebida e realizar sessões com eles.

Apenas em 1931 os trabalhos foram oficializados já na Vila Ivonete, onde o mestre residia. Temos alguns relatos dos primeiros trabalhos, que eram feitos com 6 hinos do mestre e alguns do Germano, que iam sendo repetidos até o raiar o dia. Outros companheiros chegaram depois como Maria Marques, João Pereira e Antônio Gomes.

O Alto Santo e a Consolidação da Doutrina

Quando o mestre se mudou para o Alto da Santa Cruz, teve início uma nova fase da expansão da Doutrina, com a chegada de novas famílias. A sua fama de curador, rezador e de orientador espiritual foi tomando vulto a ponto dele ser procurado e reconhecido por pessoas influentes da sociedade local, incluindo autoridades do governo e políticos.

Alto Santo - sede da doutrina

Os trabalhos foram sendo aperfeiçoados sempre segundo as orientações que o mestre recebia